OS FILHOS NA SEPARAÇÃO DOS PAIS: TERMINAR O CASAL CONJUGAL E FAZER NASCER O CASAL PARENTAL

OS FILHOS NA SEPARAÇÃO DOS PAIS: TERMINAR O CASAL CONJUGAL E FAZER NASCER O CASAL PARENTAL

Em 2019 foram cerca de 61% as separações no nosso País numa tendência que se materializa desde o inicio do século atual.

Efetivamente muito há a dizer e refletir sobre este tema: as causas, as consequências o que se pode fazer para prevenir, no entanto o que pretendo neste artigo não é abordar o tema diretamente, mas sim, assumindo que o ato da separação se encontra consumado e foi o melhor para ambas as partes, promover um olhar sobre o que acontece e o que poderá acontecer em alternativa neste contexto quando existem filhos envolvidos.

Numa época em que, fruto da desestruturação da relação conjugal, sucedem-se a uma separação, dolorosas situações de disputas de filhos e de consequentes processos de regulação do poder paternal, exige-se uma atenção especial sobre a reconstrução da parentalidade que mesmo não isenta de dor para qualquer um dos membros da família, será sempre o melhor para todas as partes principalmente para aqueles que não tiveram mesmo responsabilidades na situação que levou à separação: os filhos.

O facto é que vivências negativas enquanto casal, perlongam-se e acentuam-se após uma separação; ressentimentos e sentimentos mal resolvidos acabam por prevalecer e refletir-se no comportamento dos progenitores, o que infelizmente e frequentemente se reflete em atos em que um filho acaba por (in)conscientemente ser utilizado como arma para uma qualquer  agressão/retaliação.

Impedir que os pais destruam a infância dos filhos, por melhores que sejam as boas intenções deles, é o desafio maior. Até porque, como diz Mia Couto, “A infância é quando ainda não é demasiado tarde!”

Todo Pai e Mãe gosta dos filhos, não sabem é o que estão a fazer, pois a marca emocional negativa do fim da conjugalidade é intensa e geradora de ressentimento que incorpora o subconsciente (só há um evento mais grave: a morte de um filho), e por lá fica (subconsciente), definindo um sentimento negativo entre os pais e ativando de forma quase absoluta inúmeros conflitos sobre tudo, e em particular também na parentalidade.

Daí que surja o grande desafio incorporado no título deste artigo: “terminar com o casal conjugal”, e fazer “nascer o casal parental” pois sem o primeiro passo, nunca existirá a possibilidade de construir uma nova relação madura, relação essa geradora de uma base segura para os filhos.

Se não foi enquanto casados que conseguiram construir uma relação positiva e duradoura que seja a partir de agora e pelo único motivo que os vai continuar a unir: os Filhos!

Conscientes que o conflito conjugal prejudica a relação entre dois pais separados, impedindo-os de se poderem relacionar saudavelmente (para proporcionarem uma experiência familiar equilibrada e harmoniosa aos seus filhos), imaginar este exercício de “desconstruir” os pais que outrora se tiveram na vida um do outro, poderá permitir iniciarem uma relação nova… limpa, virgem, apagar a sua história de mágoas, curar as feridas… quase como que “demolir” toda essa estrutura conjugal e depois “reconstruir” uma nova estrutura na sua forma parental,
formando um novo casal, apenas parental, livre do passado e do ressentimento.

Numa fase inicial da separação, há muitas coisas que naturalmente vão morrer, outras vão nascer, outras vão-se transformar…
Procurar ajuda de um profissional que ajude a olhar para o presente e se foque no futuro da relação centrada no(s) filho(s) é fundamental quando os Pais não conseguem fazê-lo sozinhos.
Alguém que oriente e apazigue a relação. O ponto de partida pode mesmo começar pelo acesso a conhecimento que muitas vezes os Pais não possuem, a chamada terapia cognitiva. O impacto nas crianças de uma relação negativa e agressiva entre os progenitores, pode ser brutal ao nível do subconsciente da criança e trazer efeitos negativos para a construção da personalidade dessa criança enquanto adulto.
E os Pais em conflito têm de começar por saber isto; saber que o conflito terá consequências no desenvolvimento do(s) seu(s) filho(s). Um filho não é para disputar, é para amar.
Manter o modelo masculino e feminino na construção da personalidade de um filho é fundamental.
Como será se conseguirem uma relação suficientemente pacífica, para não serem necessárias barricadas e cada um possa construir a sua relação com a criança?

Sim é possível e não terão de ser grandes comunicadores; deixarem o contacto e a logística no mínimo; talvez seja esse um bom ponto de partida para harmonizar as crianças com cada um dos seus pais.
Pedir o impossível, às vezes é pedir demasiado. Mas entre o ideal e o impossível, há um mundo inteiro de possibilidades; há um futuro.
O respeito mútuo entre progenitores será um exemplo para a criança que vai crescer com o exemplo que os Pais derem.
Crianças que crescem em conflito vão acreditar que essa é a realidade normal entre um casal e provavelmente levar estes comportamentos consigo para a fase adulta.
Desmistificar crenças relativamente aos tempos que a criança deverá passar com cada um dos progenitores. O importante pode não ser a casa e o espaço físico, mas sim o mundo emocional da criança.
E mais uma vez aqui reforço a oportunidade que será em procurar ajuda de um profissional que apoie neste processo de transição.
Alguém que ajude a trabalhar o sentimento e emoção que cada um tem pelo outro…
Atualmente já é possível entender, até à luz da Programação Neurolinguística, que pensamentos geram sentimentos/emoções que por sua vez se refletem em comportamentos, e são precisamente comportamentos que aqui queremos alterar.
A maioria dos nossos sentimentos têm uma crença por trás (maioritariamente inconscientes), que se for “desmontada” poderá levar a um novo sentimento e por sua vez a renovados comportamentos.
É então importante ajudar Pais nestas circunstâncias a terem a consciência do que está por trás desses sentimentos e respetivos comportamentos.

O mito da “Bola Ping-Pong” ou do “Andar com a mala às costas”

É importantíssimo valorizar a relação entre uma criança e ambos os progenitores e para isso é crucial ambos entenderem que a vinculação da criança se encontra na relação saudável com ambos os Pais e não no espaço físico. Desconstruir esta crença instalada e ajudar a definir novas rotinas e hábitos que promovam esses tempos equilibrados com os dois.
Poderá ser um desafio às vezes desconfortável para ambos, no entanto convém lembrar que não terá sido o(s) filho(s) que promoveram a separação dos Pais e como tal colocarem a criança no topo das suas prioridades em detrimento dos egos é fundamental.
Além disso há que refletir sobre a realidade ao dia de hoje e não como era no século passado! Os tempos mudaram. Atualmente o mundo muda a uma velocidade vertiginosa e o mundo das crianças também. O Futuro que vão encontrar é de mudança constante, desafio continuo, desassossego e desconforto, como tal tentar proteger as crianças e impedi-las de viver experiências diversificadas, pode ser um mundo de boas intenções, mas que já se encontra completamente obsoleto aos dias de hoje. E isto inclusive ao nível da experiência da parentalidade, das dinâmicas familiares e das novas rotinas.
São os Pais que na maioria das vezes fazem do tema “Regime de residência”, um “bicho de 7 cabeças”. Deixar a criança experienciar vivências diferentes pode ser enriquecedor.
Lembro: já não estamos no Século 20!
Basta olhar para outras realidades e inclusive outros países, onde crianças mudam regularmente de escola, mudam regularmente de casa (mesmo em famílias estruturadas) aprendem várias línguas, praticam desportos variados, estão sujeitas a constantes alterações nos conteúdos curriculares, etc., etc…. e porque o futuro como adultas será também assim, não só nos aspetos anteriormente listados, mas também, por exemplo na constante volatilidade profissional a que vão estar sujeitas com certeza.
Reforço: as crianças precisam de diversidade a vários níveis e experiências diferentes e enriquecedoras.
O afastamento de um dos progenitores (chamados Órfãos de Pais vivos), isso sim pode ser prejudicial, já que poderá refletir-se no chamado síndrome de rejeição que a criança possa sentir por parte do progenitor ausente e com impacto na personalidade do futuro adulto.
O Mundo e o Futuro serão sempre das crianças! Queremos prepará-las para esse momento começando por ajudar os Pais de Hoje, para que no futuro essas crianças sejam adultos muito mais bem preparadas, a nível emocional e relacional.

Álvaro Manuel Pinto de Magalhães

IHTP Sports Academy Manager
Consultor de Excelência Pessoal IHTP

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