5 passos orientados para a solução

5 passos orientados para a solução

Quantas vezes um Líder tem que resolver casos complicados? Diria que frequentemente.
Quando se trata da liderança, um dos assuntos mais sensíveis é quando se tem que lidar com essas situações delicadas. Uma situação delicada pode ser uma decisão de um escalão superior, um fator externo que irá afetar toda a equipa ou parte dela, injustiças causadas por terceiros, ou até falhas dentro da equipa (até mesmo pelo líder) que originou uma situação desagradável.

Assim sendo, deixo aqui o que a minha experiência diz que pode ser uma abordagem prática, orientada para a solução, de 5 passos a seguir:

Avaliar

Como é que uma pessoa em geral, e um líder em particular, vai conseguir tomar a decisão mais acertada sem ter todos os dados em cima da mesa? Tem que haver uma correta avaliação da situação. Para tal, saliento o fato de ouvir os vários intervenientes de um acontecimento. Enquanto tal, é preferível que nunca seja comunicada uma opinião sem ter ouvido toda a gente ou antes de se ter toda a informação necessária.
O que pode complicar a vida é quando se, por um lado, se toma uma decisão ou se defende um dos lados sem ter analisado toda a informação de que se necessita. Por outro lado, também se dificulta quando se entra na armadilha de analisar, em exagero, cada pormenor da equação (embora possa haver casos que assim o exijam). Quando tal acontece, a solução pode não chegar atempadamente ou não provocar o efeito desejado. Em caso de dúvida, e depois de estudar a informação disponível para tomar a decisão, estou cada vez mais convicto de que a intuição desempenha um papel importante (este tópico, só em si, seria tema para um estudo/conversa independente).
Depois de avaliar todo o que temos disponível, passamos para o segundo passo…

Assumir

Se há uma postura a considerar em todas as etapas deste processo, aqui no passo de “assumir” a mesma revela uma nítida importância: a capacidade de se conseguir afastar e ver toda a situação de um ponto de vista externo (dissociação da situação). O que esta perspetiva nos faz é ajudar a perceber de uma forma mais objetiva todas as situações e olhar para nós mesmos apenas como espectadores (mesmo que tivéssemos participado no contexto). Ao ter este ponto de vista, somos mais corretos na decisão a tomar e dá-nos a liberdade de poder melhorar a situação. Como fazemos isso? Assumir a nossa cota parte na envolvência da situação. Pode ser algo que fizemos de errado e poderíamos ter feito de outra forma. Pode ser algo que poderíamos ter evitado se tivéssemos consciência da situação atempadamente. Pode ser algo que agora podemos fazer para resolver a situação. Ou apenas, pode ser alguma coisa que podemos fazer para atenuar as consequência do que aconteceu.
Ao assumirmos esta responsabilidade, depois de uma correta avaliação e de nos dissociarmos da situação, ficamos mais fortes e prevenimos situações idênticas no futuro.
Passamos agora para a próxima etapa:

Aceitar

Durante todo o processo, podemos chegar à conclusão de que somos impotentes para fazer o que seria o ideal. Que não temos poder para aplicar o que queremos porque alguém, hierarquicamente acima de nós, tem outro ponto de vista. Ou de que falhamos de forma drástica em algo que seria inadmissível. Em qualquer uma destas situações anteriores, e outras que possam estar relacionadas, só há uma coisa a fazer: aceitar o que aconteceu (que não significa concordar).
Depois de no passo nº2 termos assumido tudo o que há para assumir e ganho o poder de mudar o que nos compete, há coisas que não vamos conseguir mudar. Neste caso, resta aceitar. Mesmo que isto possa provocar dor em relação a algo que foi feito ou em relação a alguém, não havendo mais nada a fazer. Aceitar pode ter um significado mais amplo do que inicialmente aparenta. Aceitar significa que, mesmo não concordando, reconheço que é um fato e não há nada a fazer para mudar o que aconteceu, pois já aconteceu. Sem entrar no âmbito da religião, aceitar pode estar ligado ao perdão, ao deixar ir, ao orientar a parte energética e emocional para se focar na solução e não negativamente nos acontecimentos que não consigo alterar. Deve-se esquecer as situações difíceis, acontecimentos negativos e a origem da dor? Acredito que não. Agora olhando para essas situações de forma neutra, dissociando-nos delas como falamos anteriormente (a Programação Neurolinguística tem sido uma ferramenta impactante nesta área), podemos passar a barreira anterior e chegar a um ponto onde há crescimento com a situação. Neste ponto, é quando se olha para o cenário todo, tiramos uma conclusão e se consegue:

Aprender

Uma vez ouvi que na vida só existem dois tipos de situações… as de sucesso e as lições aprendidas. Contudo, é necessário estarmos conscientes e com abertura mental suficiente para olhar para uma situação e tirar uma lição (ou lições, dependendo do caso). Depois de passar pelos pontos anteriores, e em qualquer que seja a situação, podemos sempre ter algo para aprender. Esta aprendizagem pode surgir em relação a determinada situação, em relação a determinada pessoa ou até mesmo em relação a nós próprios. Esta mesma aprendizagem não tem que ser só no final do processo. Pode até ser enquanto estamos num determinado passo, pois cada um dos passos traz consigo um grande potencial de evolução. Para cada dificuldade, existe sempre um potencial equivalente para o crescimento. É preciso saber aproveitar este potencial.
A aprendizagem, só em si, não se reflete apenas no contexto teórico, pois é preciso que a mesma se materialize. Com a aprendizagem há um momento em que se tem que tomar uma decisão (sabendo, também, que a indecisão é a decisão de não agir). Estando a decisão tomada, é tempo de passar à:

Agir

Por muito importante que seja refletir, compreender e aprender determinado conteúdo, o mesmo só fica completo quando se manifesta na prática. Desta feita, após a avaliação da situação, assumir a nossa parte, aceitar o que não podemos mudar e aprender com o contexto, a ação é um “momento mágico”. Por vezes vai ser difícil agir, por vezes vai ser agradável. Em certos momentos pode ser complexo e demorado, noutros até simples e rápido. Contudo, a ação é um momento mágico porque depois de executada, de se fazer o que tem de ser feito, ela vem acompanhada de uma paz interior de uma de um sentido de missão cumprida. Nem que seja com o objetivo de trazer justiça e objetividade às lições aprendidas. E isto é transversal a todas as áreas da vida. Para além de mais, a ação ajuda a superar certos medos, permite tirar mais lições e consolidar as aprendidas… sempre a aprender e cada vez melhor.
Outro assunto importante, derivado da ação, é a mensagem que estamos a transmitir aos outros. Pode parecer que não, mas quando fazemos algo, seja o que for, estamos sempre a ser observados (nem que seja pelo nosso subconsciente). Ao estarmos a ser observados, enraizamos os nossos valores de forma que os outros percebam o que podem esperar de nós. Quando isso acontece, acabamos por evitar e afastar, cada vez mais, pessoas e situações indesejadas. Por outro lado, quando as nossas ações vão ao encontro com os nossos valores, comunicamos uma mensagem de tal forma potente, que outras pessoas e situações semelhantes acabam por se aproximar e revelar.
E como ouvi uma vez alguém dizer: o que tu fazes fala tão alto, que nem consigo ouvir o que dizes. Por outras palavras, as nossas ações valem sempre mais do que apenas as nossas palavras.

Gostava de partilhar agora uma história, que aconteceu recentemente, durante a época de Natal.
No Exército Português, havia um soldado que estava a prestar serviço nas fileiras há relativamente pouco tempo (Vamos o tratar por Soldado Iscas, não sendo o verdadeiro nome e protegendo a sua identidade). Estando a aproximar-se o período de Natal, o Iscas consultou a previsão da escala de serviço (documento com as datas de quem está de serviço nos respetivos dias) e constatou que estaria de serviço no dia 26 de dezembro. Isto significa que ele conseguiria passar os dias 24 e 25 de dezembro com a sua família.
O Soldado Iscas, para ajudar a contextualizar a situação, mora a cerca de 150 km de distância do quartel onde presta serviço e depende dos transportes públicos para ir trabalhar, pois não tem meio de transporte próprio.
Qual não é o seu espanto, quando é contactado de forma inesperada para avançar mais cedo do que o previsto. Aconteceu um imprevisto com quem estava de serviço antes do Iscas, e na manhã do dia 22 de dezembro, Iscas tem que se reparar para avançar. Com esta mudança, o Soldado Iscas vai estar de serviço dia 23 e 25 de dezembro. Como ele depende dos transportes públicos, ele tem que apanhar o autocarro na noite do dia 22 de dezembro, pois é a única forma de poder chegar a tempo ao quartel.
Até aqui, embora seja uma alteração imprevista e chata, é o que é, pois faz parte da sua profissão e segue as normas estipuladas. O que vai dificultar mesmo a situação, é que no dia 24 de dezembro o Iscas não tem forma de ir para casa, pois não há autocarros disponíveis. Assim sendo, passará os dias 23, 24 e 25 de dezembro, no quartel.

O Líder Militar que teve que lidar com a situação no momento, apercebendo-se do acontecimento, fez o seguinte:
1- Questionou todos os intervenientes para ver o que realmente se estava a passar a nível de serviço, inclusive falou com outras pessoas que poderiam ter pontos de vista diferentes. Até mesmo averiguando com algum pormenor a situação pessoal e familiar (avaliou a situação);
2- Percebeu que não havia nada a fazer quanto ao serviço e que, ele próprio, não poderia fazer nada para alterar a situação, pois o Soldado Iscas teria que fazer 48 horas de serviço entre o dia 23 e 25 de dezembro. O Líder também entendeu que algumas das decisões estavam além do seu poder de ação, não conseguindo alcançar determinadas decisões (Assumiu o que poderia e não poderia fazer);
3- Estando consciente de todo o que estava a acontecer, o líder aceitou que haviam coisas que ele não podia alterar, apercebendo-se das consequências da situação (Aceitou o inalterável);
4- Chegou à conclusão de que sempre haverá injustiças na vida e que, por vezes, quem mais sofre com isso (pelo menos temporariamente), são os que menos culpa têm no processo. Também decidiu que vai estar mais atento aos sinais que podem indicar uma futura situação idêntica e esforçar-se para a evitar (Aprendeu e assimilou o conteúdo)
5- O Líder Militar, vendo que na prática não há muito a fazer para corrigir a situação, decidiu minimizar os estragos e fazer toda a diferença para o Soldado Iscas. Sem ter que o fazer, o Líder ajudou o Iscas a estar de serviço nos dias 23 e 24 de dezembro, e assim estar livre no dia 25 de dezembro. Não conseguindo o Iscas estar com a sua família na noite de Natal, e não tendo transporte para ir a casa no dia 25 de dezembro, o Líder tomou uma postura deveras impressionante. Ele foi levar o Iscas a casa no seu próprio carro, acarretando os custos da viagem, e dedicando o seu tempo para fazer cerca de 300 km.

Qual o motivo desta ação? Apenas para que alguém, que o Líder mal conhece, consiga passar um pouco do tempo de Natal com a sua família (Tomou uma ação em prol de uma solução melhor).
Com toda esta história, de entre muitas que todos nós temos no nosso dia a dia, podemos aprender e melhorar.
Para além disso, o Líder de que falamos, mesmo não o tendo feito para receber louvores nem significância, fez toda a diferença no Natal da família do Iscas. Também ganhou mais respeito por quem assistiu ao cenário de perto.

Todos nós somos líderes em determinada área, nem que seja na nossa própria vida e nas nossas decisões. Seguindo este método aqui apresentado, podemos fazer a diferença.
Uma decisão de cada vez, um dia de cada vez, o líder deixa sempre a sua marca pelo exemplo que dá.

Edgardo Lopes
Consultor I Have The Power; Sargento do Exército Português

One response to “5 passos orientados para a solução”

  1. Álvaro Magalhães diz:

    Parabéns Edgardo pelo teu artigo 👌

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *