O impacto da vertente mental na recuperação de lesões em atletas

O impacto da vertente mental na recuperação de lesões em atletas

Qual o maior medo dos atletas ao lidar com uma lesão?
Cada atleta tem uma experiência única e pessoal com lesões, o que significa que as lesões afetam os atletas de forma diferente, dependendo da perspectiva de cada um deles ou até por vezes da valorização que é dada à lesão, em fases diferentes da sua carreira desportiva.

As lesões desportivas podem ser multifatoriais. Cada lesão pode ter uma componente física, mental e emocional e até por vezes nutricional. E negligenciar qualquer um destes fatores pode atrasar o processo de recuperação mental ou física dessa lesão.
Isto porque os fatores psicológicos, tantas vezes deixados para segundo plano desempenham um papel fundamental na génese das lesões desportivas, bem como na sua recuperação.
Relembrar por isso que na recuperação da lesão desportiva podem implicar negativa ou positivamente sobre os atletas diversos tipos de agentes desportivos, desde os treinadores, aos dirigentes, médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos e familiares ou amigos.
Quero desta forma salientar a importância do fator psicológico em todo o fenómeno desportivo, dai a importância da formação em psicologia por parte de todos estes agentes ligados ao desporto, apoiados sempre, claro pela existência de um psicólogo especializado na área desportiva.

Heil, Zemper e Cárter, em 1993 realizaram uma investigação com 1600 atletas. Neste estudo constatou-se que aproximadamente metade das lesões têm uma relação com o comportamento do atleta. A outra metade diz respeito a fatores externos ao desportista, como por exemplo relacionados com equipamento ou material, outras causas alheias ou comportamento inadequado de adversários.
Dentro destes fatores internos e comportamentais há um peso grande para as causas físicas das lesões que podem ser inúmeras, naturalmente, mas sem dúvida que os fatores psicológicos têm também uma relevância considerável neste aspeto.
Alguns destes fatores psicológicos que aumentam a probabilidade de lesões poderão ser: elevados níveis de stress, acontecimentos pessoais de vida positivos ou negativos que causem ansiedade, baixa resiliência, proximidade de uma competição importante, historial de lesões passadas e algumas características pessoais como baixa autoestima, tendência para o pessimismo, falta ou excesso de confiança ou ansiedade alta.

Quando o atleta se lesiona, poderá ter, entre outras, três grandes preocupações em diferentes fases e com diferentes desafios:
1. A lesão em si e a sua gravidade
2. A recuperação necessária e o tempo longe da competição e dos treinos
3. Como será o retorno à competição

Vamos examinar a fase final da lesão, o retorno à competição.
A maioria dos atletas quer voltar aos treinos o mais rápido possível, não querem perder a sua performance física ou perder o seu lugar na equipa ou na contribuição para o sucesso da mesma, o que aparentemente pode transparecer características resilientes por parte de alguns deles.
Mas por vezes esta vontade de competir faz com que os atletas voltem à competição muito cedo, e na prática, o problema que se coloca com isto é que a falta de prontidão física e mental faz com que possam ter um desempenho abaixo do esperado que poderá aumentar o risco de novas lesões e consequentemente, este desempenho abaixo do esperado possa levar a problemas de confiança e a uma redução de desempenho e da sua performance.
É compreensível que o atleta queira retornar à competição rapidamente. Especialmente quando se trata de alguém cujos comportamentos e atitudes na vida se identificam constantemente com “ser um atleta”.
No entanto, é preciso perceber que há muito em jogo caso a volta à competição de facto aconteça antes do atleta recuperar totalmente da lesão.

Para terminar optei por deixar algumas estratégias para os atletas em fase de recuperação de lesão que considero serem determinantes nestes processos:

1- Criar um plano de recuperação em conjunto com o seu treinador, preparador físico, fisioterapeuta e psicólogo para maximizar a sua preparação física e mental para a competição.
Naturalmente este plano de recuperação deve consistir em várias etapas que devem ser alcançadas progressivamente e com equilíbrio antes de avançar para a próxima fase, como por exemplo não sentir dor ou conseguir realizar exercícios de reabilitação com baixo nível de desconforto, atingir o nível de condicionamento anterior à lesão ou superar o medo de sofrer uma nova lesão.
Um plano de recuperação da lesão específico e detalhado poderá ajudar o atleta a sentir-se no controlo do processo de lesão e a sentir-se confiante e preparado quando voltar à competição, em tudo aquilo que depender dele.

2- Considerar aprender estratégias de visualização e de relaxamento ou redução de ansiedade, incorporando a visualização de um futuro desempenho ao seu melhor nível novamente, acreditando diariamente com otimismo na aprovação do seu médico ou fisioterapeuta para retomar os treinos.

3- Relembrar e pensar em obstáculos potenciais que naturalmente poderão surgir e eventualmente afetarão sua reabilitação. Para cada obstáculo, escrever uma ou duas maneiras de superá-lo para que possa estar melhor preparado para competir e ter resposta para qualquer contrariedade.

4- Rodear-se de staff técnico, colegas, amigos e família otimistas e com mindset positivo e vencedor.
Manter o descanso e a alimentação adequada.

5- Por fim, mas muito importante, reconhecer a importância da paciência, da resiliência e da confiança para aprender a ouvir e conhecer o seu corpo para que o atleta esteja a qualquer momento totalmente preparado para dar o melhor de si.

 

Sofia Pinto

Strenght & Conditioning and Mental Performance Coach

Bibliografia:
HORTA, Luís. Prevenção de Lesões no Desporto. 1 ed. Lisboa: Texto Editores, 2011
TAVARES, Nádia. Mind7 das Lesões: o guia psicológico de ficar de fora. 1 ed. Lisboa: Edições Mahatma, 2019
BRICK, Noel; DOUGLAS, Scoot. Mentes Poderosas: Atitude mental dos atletas de elite. 1 ed. Bookout Editora, 2024

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