5 Valores Determinantes para a Autoliderança dos Jovens

5 Valores Determinantes para a Autoliderança dos Jovens

A autoliderança nem sempre é fácil para um adulto com alguma preparação e uma certa experiência de vida. Imagine quando se trata de uma criança ou até mesmo de um jovem…

Há uma altura na vida em que os filhos têm de sair debaixo da alçada dos pais. É preciso ganhar asas e voar. Embora seja uma fase natural na vida de qualquer pessoa, nem sempre os filhos, ou até mesmo os pais, estão preparados para tal passo.

Este processo é tão grande e determinante que representa o início de um novo começo (para ambos os lados). É normal que comecem a surgir questões como as seguintes: Será que fiz tudo o que podia e devia para preparar o meu filho? Mesmo tendo-o feito, será que ele está preparado? Se correr mal, como é que vai reagir? E eu, o que faço agora sem ele por perto?

 

A capacidade de autoliderança é testada com a saída de casa

 

Os filhos podem sair de casa por diversas razões: para casar, morar sozinhos, estudar ou trabalhar noutra cidade (por vezes fora do país). Mas também pode ser para passar um período breve (estágio ou férias) e regressar no final. Há ainda quem o faça para ingressar nas fileiras das Forças Armadas, ausentando-se por longos períodos. Neste caso, o desafio pode ser ampliado devido aos obstáculos que o jovem terá de enfrentar.

Estou há 15 anos no Exército Português, com mais de metade deste período dedicado à Formação Militar em várias vertentes. Ao longo do tempo, tive (e ainda tenho) a oportunidade de transmitir conhecimento a muitos jovens recentemente chegados do “mundo civil”. Tal permite prepará-los para funções específicas a desempenhar dentro da instituição militar e no caminho da autoliderança.

Ao longo dos anos, fui identificando vários fatores que diferenciam os instruendos que conseguem concluir os cursos com aproveitamento e os que ficam pelo caminho. Muitos outros poderiam ser referenciados, mas acabei por notar um conjunto de valores que os distinguem fortemente, por os aproximarem do cumprimento da missão.

 

5 Valores fundamentais para cumprir uma missão

 

1. Adaptação

Muitas vezes, dizemos a um “futuro combatente” – um jovem aparentemente capaz – que ele tem imenso potencial. Na realidade até tem mesmo. Contudo, o potencial só em si é irrelevante. É fundamental serem tomadas certas ações para colocar todo aquele potencial em bruto, orientado para o resultado. Por outras palavras, quem não fizer o que é preciso fazer não chega onde quer chegar.

Nas Forças Armadas, temos um termo muito próprio: “camuflagem”. Este significa muito mais do que disfarçar a cor da pele, a silhueta, eliminar odores, abafar ruídos ou esconder brilhos. É a capacidade de se adaptar ao meio ambiente, seja ele qual for. Esta característica é essencial para a autoliderança.

Assim sendo, quando se está no meio da natureza, tem de se fazer parte da natureza. Quando se está numa ilustre cerimónia militar, tem de se fazer parte da cerimónia. Quando se está em instrução, tem de se fazer parte desta e “encarnar o papel, vestir a camisola”.

Quem deixa o ego de lado e consegue adaptar-se ao que lhe é exigido na altura da formação – em particular nos momentos decisivos e de avaliação – consegue nitidamente os melhores resultados. Contudo, a adaptação é complementada com uma outra capacidade com a qual anda lado a lado: a observação.

 

2. Observação

Para se poder adaptar, é necessário também observar. Utilizando o binómio adaptação-observação, quem se adapta melhor consegue fazer uma observação mais precisa e objetiva das situações. Na prática, acredito que nenhum se sobreponha ao outro. Na verdade, ambos evoluem equilibradamente consoante vão sendo praticados.

Se um jovem se adapta melhor a um desafio lançado consegue observar melhor a realidade da situação. A afinação e desenvolvimento da observação permitem-lhe adaptar-se de forma a alcançar o seu objetivo. Um dos perigos de não desenvolver uma observação correta é ver as coisas de forma diferente do que são na realidade.

Imagine que um sentinela está de “vigia” à noite e vê uma mancha mais escura entre a vegetação. Tem que saber observar e perceber se é um arbusto ou se é o inimigo camuflado. No seu dia-a-dia, tem que distinguir se aquilo que ouve nas notícias é apenas um facto, uma ameaça ou uma oportunidade. Isso consegue-se com uma correta observação, uma forte aliada da autoliderança.

Mas de que forma o “jovem soldado” vai perceber se está a observar da maneira certa e a ter uma adaptação correta à situação apresentada? Tem de dedicar recursos, como tempo e energia, à aprendizagem contínua.

 

3. Aprendizagem contínua

Quem não está a evoluir, está a regredir. Reparo que, quando temos um grupo novo de jovens para formar, aqueles que têm vontade e humildade para aprender continuamente estão em larga vantagem.

No início, a diferença pode não parecer assim tão óbvia. No entanto, com o decorrer do tempo, a diferença entre os que vão ficando preparados e os que vão ficando para trás aumenta drasticamente. Culmina com os primeiros a atingirem o objetivo e os últimos a terem que repetir ou até mesmo (na maior parte dos casos) a serem “convidados” a sair.

Falhar só é falhar quando não se aprende, melhora ou tenta até conseguir. Sempre houve e haverá casos de pessoas que não conseguem à primeira, mas que estão determinadas a triunfar. Voltam à carga depois de aprenderem com quem sabe o que devem fazer para melhorarem. Estes jovens conseguem a meta e muitas vezes com resultados incríveis.

O caminho para o sucesso, seja em que área for, está repleto de fracassos e falhas que fazem parte do processo. Como fazem, então, os triunfantes após fracassar? A única coisa que quem quer vencer pode fazer é aplicar a arte da persistência.

 

4. Persistência

“Quando o caminho fica duro, só os duros permanecem no caminho”. Esta expressão utilizada vulgarmente é subestimada pela sua facilidade de compreensão, mas apresenta uma dificuldade de conhecimento.

O que acontece à maioria das pessoas que passa pelos cursos militares e desiste (seja no decorrer do curso ou no final nas provas decisivas)? Estes indivíduos associam um prémio maior a desistir do que a continuar e terminar com êxito.

Em que situações é que “o caminho fica duro”? Quando os pais dizem aos filhos que estes não têm de continuar a sofrer (pagar o preço) para conseguir o que querem. Quando os amigos estão na praia e eles estão no mato a passar fome, frio e dor. Quando outros já desistiram e não aconteceu nada de grave ou quando chegar ao fim, afinal, não é nada de especial. Por fim, noutros casos, quando simplesmente podem.

Porque é que “só os duros permanecem no caminho”? Porque são impermeáveis às críticas externas, porque sabem que nada de grande se conquista sem sacrifício e trabalho. Além disso, porque estão focados no resultado final, mais do que no desafio do presente ou porque querem tanto que simplesmente não podem desistir. Agora, vendo bem os dois pontos de vista, o que faz alguém seguir um caminho em vez do outro? Ter consciência e dominar o poder de decisão.

 

5. Poder de decisão

Há uns tempos ouvi alguém dizer que o único poder que o ser humano realmente tem é o de decisão. Na prática, estamos constantemente a decidir. Decidimos em que prestar atenção em cada momento. Tomamos decisões sobre qual o significado que as situações têm para nós. Decidimos que ações vamos tomar de acordo com a nossa interpretação de cada situação.

Até nas coisas mais simples temos que decidir: O que queres almoçar? Queres café? Preferes azul ou vermelho? Logo à noite, a que horas? Ele vai para Coimbra ou para o Porto? Vens ou ficas? Queres desistir ou preferes continuar? A lista é interminável e as decisões também o são.

Sinto, segundo o que tenho observado, que quem está mais calmo e consciente nos momentos de decisão faz opções mais acertadas em direção ao resultado desejado. Quem está distraído, influenciado pelos outros, nervoso, alterado ou tenso costuma tomar decisões menos acertadas.

Já todos nós passamos por momentos na vida em que uma simples decisão muda por completo o rumo da mesma. E funciona para os dois lados, tanto para o negativo como para o positivo.

 

O que fazer com estes valores indispensáveis na autoliderança?

 

Os jovens que mais triunfam nos cursos militares são os que dominam estes 5 valores indispensáveis. Mas como é que um adulto pode ajudar os mais novos a desenvolver estas competências?

Todos os valores referidos anteriormente estão ligados à autoliderança. Pelo que tem sido a minha experiência, os mais novos aprendem muito com os exemplos que têm à sua volta. E deixem-me realçar a palavra muito. Dão mais valor àquilo que são as atitudes dos outros do que às palavras que ditam. As ações valem mais do que os sons!

No meu caso, tento seguir os princípios de autoliderança. Nesse sentido, o que faço constantemente (convido o leitor a fazê-lo também) é determinar qual dos 5 pontos preciso de melhorar mais. Depois, começo a trabalhar nele imediatamente.

Toda a gente é exemplo para alguém. Mesmo sem sabermos, quando melhoramos as nossas capacidades, as pessoas que nos observam fazem o mesmo. Apercebem-se de que é um estado natural em nós e no final ganhamos todos com os bons valores.

 

De que forma podemos melhorar os nossos valores?

 

Para trabalhar imediatamente no que preciso, posso falar com alguém que domina o que procuro, ler sobre o assunto, assistir a uma formação/workshop ou ouvir um documentário. Mas devo também estar simplesmente mais consciente do que acontece no meu quotidiano. Isto permite perceber como poderei melhorar da próxima vez que o mesmo voltar a acontecer.

Vejamos um exemplo em que procuro melhorar o poder de decisão, tomando opções mais conscientes e passando esse valor aos mais novos.

Vamos fazer um módulo de instrução fora das instalações militares e a viatura em que a minha equipa está avaria. Levantam-se várias opções e tenho de tomar uma decisão. O que faço?

  • Contactar de imediato a equipa logística;
  • Tentar diagnosticar o problema antes de contactar a equipa logística;
  • Tentar resolver o problema de forma expedita e regressar à base;
  • Perceber se alguém da minha equipa (que nem sempre conheço muito bem) tem conhecimento de mecânica automóvel;
  • Pedir a ajuda da população civil.

Qualquer uma das decisões tem uma consequência. Terei melhor perceção do resultado final quanto mais calmo e consciente estiver no momento da decisão e quanto maior a minha capacidade de autoliderança.

Uma coisa é certa: independentemente da decisão que tomar, estou a ser observado pela minha equipa de jovens guerreiros. Eles estão a absorver tudo o que faço e cada decisão minha revela os meus valores. Logo, se estou a dar o exemplo pelas minhas escolhas, que seja um bom exemplo.

 

Está preparado para melhorar?

 

E você, vai aceitar o desafio de melhorar alguma das competências mencionadas neste artigo? Vai correr o risco de dar um mau exemplo ou acha que precisa de melhorar?

Seja como for, a decisão está do seu lado e isso é um princípio fundamental na autoliderança. O sucesso está ao alcance de todos, mas somos nós quem precisa de tomar decisões importantes nesse sentido.

Gostaria de terminar com uma frase que ouvi recentemente numa formação vocacionada para pais e encarregados de educação. “Não te preocupes tanto com o mundo que vais deixar aos teus filhos, mas sim com os filhos que vais deixar ao mundo”.

 

Se leu este artigo até ao fim, parabéns pela sua decisão e pelo exemplo que está a dar! Se quiser continuar a acompanhar os artigos publicados no blog da IHTP sobre autoliderança, subscreva-o já. Receba no seu email todas as atualizações.

 

Edgardo Lopes
Consultor IHTP Academia de Liderança
Sargento do Exército Português

 


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